Outubro de 2007, estudava história quando li a respeito da 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A grande estrela da Mostra, para mim (que não curto documentários nem filmes europeus), era o projeto que unia os diretores Quentin Tarantino (“Kill Bill”, “Pulp Fiction”) e Robert Rodriguez (“Sin City”, “Era Uma Vez no México”) chamado “Grindhouse”. O projeto era constituído de dois longas e alguns curtas, cada um dos longas trabalhado por um dos diretores. Naquele momento, eu acreditava que, por serem filmes de diretores renomados, logo sairiam no circuito, portanto ignorei-os para ver filmes menos conhecidos, como “Sukiyaki Western Jango” e “Glória ao Cineasta”. Quase três anos mais tarde, estréia no circuito nacional, o novo filme de Tarantino, “À Prova de Morte”, do projeto “Grindhouse”. Nem tenho o que falar.
Bom, o que é esse tal de “Grindhouse”? Pelo que eu entendi, grindhouses são cinemas nos EUA que passam horas seguidas de filmes antigos, principalmente os “trashes”. Deve existir algum no Brasil. A ideia do projeto era homenagear os filmes B que rechearam as décadas de 60 a 80 em Hollywood. O filme de Rodriguez, “Planeta Terror” (lançado em 2008 aqui no Brasil), conta a história de um monte de zumbis e poucos sobreviventes numa cidade do Texas. Os curtas contam com a presença dos diretores Eli Roth (“O Albergue”), Rob Zombie (“Halloween”, o novo) e Edgar Wright (“Chumbo Grosso”). O conceito do projeto era passar todos os filmes de uma vez, mas alguém aqui não entendeu isso e impôs um intervalo de dois anos entre os lançamentos. E sim, eu vou continuar enchendo o saco disso.
Como acabei vendo apenas o “À Prova de Morte”, terei de comentar apenas dele. Bom, durante esses longos anos de espera, li muita coisa sobre esse filme, especialmente nos meses anteriores ao lançamento de “Bastardos Inglórios”, e nada muito bom. Ao entrar no cinema, esperava ver uma tragédia do cinema, uma espécie de masturbação de um homem que já fora visto como um cineasta promissor. Mas, felizmente, não foi isso o que vi. Tarantino ainda sabe contar bem uma história, por mais idiota que ela precise ser. E os diálogos são a grande força por trás desse roteiro. O modo com que eles pareçam não dizer nada, mas conduzem o espectador é algo estranho e nada convencional, mas já se tornou a marca registrada do diretor. E os clímaces violentos e sanguinolentos, outra marca registrada, são os mais gratificantes possíveis para as horas de diálogos.
Eu não passei uma sinopse ainda, certo? Bom, isso porque ela não é tão importante. De qualquer modo, o filme conta a história do Dublê Mike, um antigo dublê de filmes de ação interpretado por Kurt Russel (aquele mesmo, de “Star Gate” e “Vanillla Sky”), que utiliza seu carro, modificado especialmente para cenas de acidentes, deixando o banco do motorista “à prova de morte”, para assassinar belas jovens em acidentes macabros. A belas jovens que se tornam alvo do psicopata são lideradas por Rosario Dawson (“MIB II”, “Sin City”), Sydney Poitier(“Knight Rider”, Joan of Arcadia”) e Mary Elizabeth Winstead (tá, ela não é tão importante, mas achei que deveria mencioná-la. Ela fez “Sky High”, “Duro de Matar 4″ e “Scott Pilgrim”).
Caso você não se sinta atraído pela história, saiba que ela interessa muito pouco nesse filme. Toda a atmosfera de filme antigo que Tarantino quis captar funciona muito bem, com edições toscas, imagens envelhecidas, carros antigos com muita potência e filosofias de bar que deixam o filme engraçado e nostálgico, mesmo que o seja para alguém que apenas vivenciou essa época através dos filmes. Ou talvez, principalmente para esse tipo de pessoa.
Como disse antes, li muito a respeito do filme ao longo desses dois anos de espera e tudo apontava que este era o pior filme de Tarantino até agora. E talvez seja correto afirmar isso. Mas isso não é demérito algum ao filme, apenas mostra a qualidade dos outros filmes do diretor. Recomendo que assistam a essa homenagem ao cinema de outrora, antes que saia do circuito (se já não saiu) e tenham de esperar outra década para sair em DVD.
Jun